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Óbito fetal: uma dor que não se pode desconsiderar

É fato que as perdas fetais, precoces ou não, representam a frustração de muitos sonhos, desejos, fantasias e, sobretudo, rompem a possibilidade no que concerne ao exercício da maternidade e da paternidade. Na maioria das vezes, produz uma dor intolerável, de difícil e lenta recuperação, abalando o equilíbrio familiar.
Isto se deve, em parte, porque nenhuma mãe ou pai espera perder seu filho. Paralelamente, não se pode desconsiderar a idealização que cerca este momento: uma gestação faz pensar num final feliz e sua confirmação é correlacionada à ideia de uma nova vida, na qual são depositadas inúmeras expectativas. Por mais que se pense na possibilidade de que situação inversa aconteça, os riscos do processo tendem à negação e os temores e receios manifestados pela gestante são pouco valorizados e, não raras vezes, considerados sem fundamentos. 
 
Assim, quando o óbito fetal se concretiza, instala-se uma situação crítica - não só para a mãe que está, muitas vezes, inadvertida da possibilidade de perda, como também para o pai e toda família - suficiente para criar importante turbulência emocional.
 
Para a mulher, não é incomum que o óbito fetal abale a interpretação do papel feminino que, passa a ser acompanhado pelo desprezo, pela inadequação e por um profundo sentimento de ineficiência. Em outras palavras, é um golpe para sua autoestima, para sua capacidade maternal e para sua feminilidade. Ou seja, uma ferida narcísica difícil de ser cicatrizada.
 
Quando a morte cessa a trajetória de uma gravidez estabelecida, as repercussões emocionais ainda são agravadas por uma sobreposição de perdas. A construção do papel de mãe e da identidade materna, que vinham se desenvolvendo lentamente são, de forma abrupta, interrompidas. Sentimentos de intenso fracasso, de incapacidade e de inferioridade são despontados pela impossibilidade de gestar o próprio filho.
 
Para algumas mulheres, a morte de uma criança pode, ainda, mobilizar sentimentos de culpa, a qual poderá ser perpetuada perante a falta de informações adequadas. Não raro, surgem diversas interpretações irracionais na tentativa de uma explicação para tal ocorrência. Para outras, a perda do bebê significa castigo por alguma má ação.
 
No entanto, é comum entre nós a crença de que a duração e a intensidade da dor são proporcionais à convivência dos pais com seus filhos, ou seja, que a permanência da angústia dependa da extensão do conjunto de recordações deixadas pelo filho perdido. Pelo contrário; minha experiência clínica, aliada a leitura de trabalhos e pesquisas sobre o tema, tem me mostrado que a dor dos pais, por aquele que nunca se fez efetivamente presente, pode ser tão intensa, ou pior, do que por aquele de quem se têm inúmeras recordações.
 
Cabe lembrar que neste momento, muitos pais se deparam com tentativas de "reparações mágicas", por parte daqueles que os cercam. A escuta de palavras, obviamente bem intencionadas, traduzidas por falas habituais tais como: "antes agora, que era pequenino, do que depois de grande"... ; "melhor assim, pois quanto mais cedo se perde, menos se sente"... ; "você é jovem, pode tentar de novo"... ; "há males que vem para bem"... ; são relativamente frequentes.
 
Porém, a tentativa de remediar a dor do outro com argumentos contrários à questão da morte acaba por favorecer o represamento da dor e, consequentemente, o impedimento de que a mesma siga o seu curso.
 
Longe de ser tarefa fácil lidar com o luto que cerca este período, é importante frisar que as atitudes de abafar a expressão do sofrimento, geralmente, têm consequências danosas em períodos posteriores da vida da mulher, do casal e dos filhos que eventualmente virão.  Neste cenário, são vários os estudos que nos mostram a necessidade de valorização das respostas de luto após a situação de morte fetal ou de recém-nascido. Permitir que os pais visitem o recém-nascido, o toquem - caso queiram -, sugerir que deem a ele um nome, que organizem um funeral, que recolham as lembranças possíveis, são estratégias que podem favorecer a saúde psíquica de muitos casais, na medida em que facilitam a exteriorização da dor e do luto.
 
Aqui, outro cuidado merece atenção: a prática de poupar e/ou supervalorizar a fragilidade da mãe, em detrimento da expressão dos sentimentos - igualmente presentes - por parte do pai. Por vezes, o pai é bruscamente comunicado do óbito, tendo, não só que tomar as providências necessárias (atestado de óbito, enterro, avisar a família) como ainda lhe é solicitado que,por enquanto, nada diga à mulher, ou então, que se mostre forte junto a ela. Em poucas ocasiões se costuma permitir que ele "desabe" e possa demonstrar a dor de ter perdido o filho. Ou seja, o contato com a triste realidade nem sempre vem acompanhado da possibilidade do pai expressar a sua dor.
 
No cenário que envolve a morte fetal, outro aspecto merece ser destacado: a instalação de sentimentos de raiva, hostilidade e rancor, em geral, depositados seja na equipe clínica, seja nas pessoas mais próximas. Muitas vezes, é a única tentativa possível e momentânea dos pais para amenizar a dor e o sofrimento envolvidos.
 
É fundamental, portanto, que profissionais, familiares e amigos se preparem para uma possível explosão de sentimentos, tantas vezes ambíguos, tendo extrema atenção as sugestões de tranquilizantes que, muitas vezes, só retardam o processo de luto e dificultam a exposição de emoções e o encontro de novas alternativas. Torna-se fundamental também destacar que o intenso sofrimento psíquico diante da morte de um filho pode abrir caminhos para estados depressivos, caracterizados, com frequência, pelo desejo de morrer, como meio de unir-se ao objeto de amor perdido.
 
Neste contexto, parece desnecessário assinalar como primordial, a necessidade de uma avaliação cuidadosa e articulada entre os diferentes profissionais envolvidos, visando o conhecimento e a compreensão dos aspectos da dinâmica da paciente, bem como, suas reais necessidades. 
 
Outras questões poderiam ser ainda, aqui levantadas. Porém, acredito que os aspectos abordados permitem atingir o intuito deste artigo: que o compromisso seja, antes de tudo, com a permissão de se fazer tocar sentimentos, cujo destino tem sido, tantas vezes, manter-se à distância. Ou seja, é preciso abrir caminhos para que estes sentimentos que brotam da vivência do óbito fetal ou, mais precisamente, do encontro com a perda de um ente - já querido e amado - ganhem terreno e possam ressoar. É primordial, portanto, abrir um espaço de dialogo com estes pais e, principalmente, ter empatia para confortá-los, aparando suas reações.
 
Texto elaborado por Márcia Barone Bartilotti, psicóloga clínica.
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