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Fatores emocionais: um “gatilho” para o adoecimento oncológico?

Embora a maioria dos trabalhos científicos aponte que o surgimento do câncer está relacionado com uma combinação de fatores, é frequente a indagação da influência dos aspectos psicológicos como causa possível do adoecimento.
 
 A partir de minha prática clínica tenho observado que muitos pacientes fazem uma associação - quase que direta - do surgimento da doença com algum evento ou situação de suas vidas, geradores de maior abalo emocional. Momentos de desânimo e tristeza, de mágoas e raivas, ou ainda, de perdas e estresse, geralmente, são relacionados como fatores precursores da doença.
 
Assim, após o diagnóstico, não é incomum que muitas pessoas questionem o porquê de terem sido acometidas pelo câncer, ou ainda, qual é "a sua responsabilidade” no desencadeamento de sua doença. Verbalizações (ou pensamentos) tais como “eu fui o causador de minha doença...”; “eu fiz meu câncer...” ou, “o que fiz para merecer isto...” começam a fazer parte de uma série de questionamentos envolvidos no processo. É também reincidente a observação de que os conflitos emocionais podem causar uma queda no sistema imunológico e, consequentemente, terem um papel decisivo na geração do acometimento orgânico.
 
Embora estes questionamentos também sinalizem a busca por justificativas (o que é bastante pertinente ao momento), o problema é que por vezes tais questionamentos e associações tomam forma de um castigo, de uma punição; aumentando significativamente o sofrimento do paciente, na medida em que o mesmo acaba sentindo-se responsável pelo seu adoecimento.
 
Neste contexto, acredito ser necessária extrema cautela a fim de que mal entendidos e, principalmente, que interpretações vazias e selvagens sejam evitadas. Tentar entender, ou melhor, ampliar a compreensão acerca destas relações parece ser um ponto fundamental.

A partir de uma concepção holística, ou seja, total do ser humano, a psicossomática psicanalítica é uma abordagem que abre caminhos na compreensão das doenças ao conceber o Homem como um ser biopsicossocial, o que implica na interdependência de fatores físicos, sociais e psíquicos como uma unidade. Por esta linha de raciocínio, podemos pensar que embora se tenha como “pano de fundo” o aspecto emocional, ou a vivência de um conflito psíquico na sobredeterminação da doença orgânica, a questão basal e primordial que a abordagem psicossomática coloca é à saída de um enfoque reducionista no determinismo dos fenômenos que atingem o corpo para um pluralismo na observação desses fenômenos.
 
Descartam-se, portanto, as noções ou raciocínios etiológicos tendentes ao puramente psicológico. Paralelamente, perde-se o sentido de entender um sintoma, uma doença, se nesse entendimento não estiver inserida e implicada uma visão do ser humano como uma totalidade; como um complexo mente corpo imerso num ambiente sócio cultural.
 
Visto dessa forma, a idéia defendida passa a ser a de que o câncer (ou qualquer outra doença) pode derivar-se ou desenvolver-se a partir de um conflito psíquico, desde que este conflito seja compreendido como um conjunto de fatores que englobam processos inconscientes, circunstâncias existenciais, físicas, sociais e culturais.

Porém, resta aqui uma importante questão: porque uma pessoa, diante de uma situação de conflito reagiria pela via orgânica, isto é, pela doença? Apesar das inúmeras discussões e pressupostos teóricos, a resposta a este questionamento permanece de forma inconclusiva. Uma das hipóteses levantadas aponta para o aspecto da disposição psíquica, singular e característica da pessoa, ou seja, sua estrutura de personalidade que, em interação com fatores desencadeantes na vida atual, poderá possibilitar a emergência da doença diante de um conflito que se impõe.
 
Em linhas gerais, o eixo central da abordagem psicossomática psicanalítica está construído sobre o problema do enfraquecimento das funções psíquicas. Assim, diante de situações conflituosas, capazes de despertar emoções e sentimentos, o sujeito, ao invés de levá-las ao plano verbal por meio de uma fantasia, de um pensamento, de uma imaginação ou de um sonho (modos de atividade mental), reagiria no plano corporal. Em palavras diferentes, o conflito que se impõe seria transmitido pelo canal de expressão somática.
 
Neste sentido, a doença (e não apenas o câncer) passa a ser compreendida como uma forma de linguagem, um meio de defesa. Quanto menos os mecanismos mentais estiverem funcionando, mais o somático poderá ser utilizado diante de um estado de conflito.
 
Portanto, não se pode concluir - como alguns o fazem - que o paciente seja “culpado” ou “responsável” pelo surgimento de um câncer, uma vez que não “se escolhe” a via orgânica como uma maneira de defesa diante da vivência de situações pessoais de grande abalo emocional. Ela é o reflexo do funcionamento do indivíduo que, por sua vez, depende da evolução de sua própria história constituída ao longo do seu desenvolvimento.
 
Não poderia finalizar este relato sem lançar uma breve mensagem àqueles que estão diante de um diagnóstico de câncer. Não tenha como foco principal a busca pela causa do adoecimento e sim o desenvolvimento de recursos para que você possa enfrentá-la, sentir-se co-responsável pelo seu tratamento e por sua possível recuperação. E lembre-se: “o mais difícil de uma doença é viver o desamparo que ela traz. E aceitar ajuda para organizar as emoções pode ser bom para enfrentá-la” (Volich, R). 
 
Texto elaborado por Márcia Barone Bartilotti, psicóloga clínica
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