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Os relacionamentos amorosos e as dinâmicas patológicas: um olhar sobre o ciúme sem limites

Talvez seja difícil aceitar, mas os relacionamentos amorosos também tem espaço para dinâmicas patológicas. O ciúme excessivo - ou patológico - é um exemplo que pode dar lugar a situações doentias e transformar relações afetivas em casos de constante sofrimento, além de consequências devastadoras para saúde emocional e física das pessoas envolvidas.

Muitas vezes, se demora a reconhecer o problema, pois, na relação amorosa, os comportamentos e atitudes marcadas pela presença constante da desconfiança, do medo de perdas, de ameaças, retaliações, agressões físicas ou não, dentre outros sentimentos por parte de um dos parceiros se alternam com a intensa necessidade de dependência.

Também conhecido na psiquiatria como “Síndrome de Otelo”, o ciúme patológico pode ser caracterizado por um complexo conjunto de pensamentos e sentimentos que conduzem o indivíduo ao “praticamente certo” diante daquilo que é apenas possível de ocorrer... Ou seja, da perspectiva daquele que sofre de ciúme excessivo, fatos banais podem ganhar relevância e distorcer consideravelmente a percepção da realidade, principalmente, nos relacionamentos amorosos.

Sofrer por ciúme não é fácil e deixar de sentir ciúme parece ser ainda mais difícil, já que um dos principais combustíveis do ciúme patológico é a própria insegurança de quem vivencia a situação. Por esta razão, alguns especialistas assinalam que o ciúme excessivo pode também ser compreendido como um desejo de controle total sobre os sentimentos e comportamentos de outra pessoa.

Muito mais voltado para quem o sente do que para o outro, o ciúme patológico se remete ao medo que alguém sente de perder o outro ou sua exclusividade sobre ele. Ou seja, é um sentimento que pode ser relacionado à terrível sensação de ser excluído de uma relação. Assim, a sensação permanente de insegurança em relação a si mesmo e ao outro, pode levar o indivíduo a conviver com um permanente "estado de tensão", temendo ser traído ou abandonado, o que acaba acarretando, não só um sofrimento constante, mas também importantes desajustes emocionais, conjugais e familiares para todos os envolvidos.

No que diz respeito às causas do ciúme patológico, alguns especialistas apresentam a ideia de que tal quadro está associado a perturbações no processo evolutivo infantil, particularmente a vivência e/ou sentimento de exclusão durante o processo de amadurecimento emocional. 

Apesar do sofrimento envolvido, a dificuldade em aceitar que o ciúme como um grave sintoma, ou seja, como um fenômeno decorrente de diversos fatores que favorecem seu surgimento - e que deve ser tratado com ajuda especializada - ainda é um grande problema.
 
Neste contexto, diferentes abordagens de tratamento podem ser empregadas e a psicoterapia pode ser uma delas, uma vez que auxilia o paciente a analisar a origem de suas inseguranças e temores, em geral, desencadeados pelo medo ou, até mesmo, por vivências anteriores e precoces de abandono. Em outras palavras, a psicoterapia pode ajudar o paciente a estabelecer uma vinculação do seu sintoma com seu caminho vivido anteriormente.
 
Importante assinalar que nos casos mais graves a psicoterapia tem seus limites e o acompanhamento psiquiátrico se faz necessário. Ou seja, a combinação de ambos os tratamentos é, em algumas circunstâncias, o tipo de ajuda mais eficaz.

Para aqueles que se sentem prejudicados nos seus relacionamentos, fica uma dica: procure mudar o seu posicionamento na relação. Mas saiba que dificilmente o comportamento dele (a) irá mudar sem auxílio profissional. Nestes casos, nem sempre insistir na relação é o melhor caminho.

Assim, se você é vítima de ciúme patológico no seu relacionamento, busque ajuda. É preciso trabalhar, principalmente, o seu fortalecimento e sua autonomia enquanto pessoa, resgatar sua autoestima, para que você recobre sua segurança e tenha condições de colocar um “ponto final” nos abusos e agressões.
 
Texto elaborado por Márcia Barone Bartilotti, psicóloga clínica.
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